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Saturday, June 4, 2016

O PEQUENO PASSARINHO



O passarinho quereria voar para o Sol brilhante que lhe fascina o olhar;
Quereria imitar as Águias, suas irmãs, que vê elevarem-se até ao fogo divino da Santíssima Trindade... Pobre dele! tudo quanto pode fazer é agitar as suas pequenas asas; mas levantar voo, isso não está no seu pequeno poder! Que será dele? Morrerá de desgosto, ao ver-se impotente?... Oh, não! o passarinho nem sequer se vai afligir. Com um audacioso abandono, quer ficar a fixar o seu divino Sol. Nada seria capaz de o assustar, nem o vento nem a chuva; e se nuvens sombrias chegam a esconder o Astro do Amor, o passarinho não muda de lugar, pois sabe que para além das nuvens o seu Sol brilha sempre, e que o seu brilho não se poderia eclipsar nem por um instante sequer.
É verdade que às vezes o coração do passarinho se vê acometido pela tempestade; parece-lhe não acreditar que existe outra coisa, a não ser as nuvens que o envolvem. É então o momento da alegria perfeita para a pobre e débil criaturinha. Que felicidade para ela, permanecer ali, apesar de tudo, e fixar a luz invisível que se esconde à sua fé!!!...
Jesus, até agora compreendo o teu amor para com o passarinho pois ele não se afasta de Ti. Mas eu sei, e Tu também o sabes, muitas vezes a imperfeita criaturinha, ficando embora no seu lugar (isto é, sob os raios do Sol), deixa‑se distrair um pouco da sua única ocupação; apanha um grãozito à direita e à esquerda, corre atrás de um vermezito... Depois, encontrando uma pocita de água, molha as penas ainda mal formadas; quando vê uma flor que lhe agrada o seu espírito entretém-se com essa flor... Enfim! não podendo pairar como as Águias, o pobre passarinho entretém-se ainda com as bagatelas da terra. Não obstante, depois de todas as suas travessuras, em vez de se ir esconder num canto para chorar a sua miséria e morrer de arrependimento, o passarinho volta-se para o seu Bem‑amado Sol, expõe as asitas molhadas aos seus raios benfazejos, geme como a andorinha e, no seu doce cantar, confia, conta em pormenor as suas infidelidades, pensando, no seu temerário abandono, conseguir assim maior influência e atrair mais plenamente o amor d’Aquele que não veio chamar os justos mas os pecadores... Se o Astro Adorado continuar surdo ao chilrear plangente da sua criaturinha, se permanecer velado..., pois bem: a criaturinha continua molhada, aceita ficar transida de frio, e ainda se alegra com esse sofrimento que, aliás, mereceu...
Ó Jesus! como o teu passarinho está contente por ser débil e pequeno. Que seria dele se fosse grande?... Nunca teria a audácia de aparecer na tua presença, de dormitar diante de Ti... Sim, aí está mais uma fraqueza do passarinho: quando quer fixar o Divino Sol, e as nuvens o impedem de ver um único raio, contra sua vontade os seus olhitos fecham-se, a sua cabecinha esconde-se debaixo da asita, e a pobre criaturinha adormece, julgando fixar ainda o seu Astro Querido. Ao acordar, não fica desolado, o seu coraçãozinho fica em paz, e recomeça o seu ofício de amor. Invoca os Anjos e os Santos que se elevam como Águias em direcção ao Fogo devorador, objecto do seu desejo.
E as Águias, compadecendo-se do seu irmãozinho, protegem-no, defendem-no, e põem em fuga os abutres que o queriam devorar. Os abutres, imagem do demónio, o passarinho não os teme, pois não está destinado a ser presa deles, mas da Águia que contempla no centro do Sol do Amor.
Por tanto tempo quanto quiseres, ó meu Bem-amado, o teu passarinho ficará sem forças e sem asas; permanecerá sempre com os olhos fixos em Ti. Quer ser fascinado pelo teu divino olhar, quer tornar‑se a presa do teu Amor... Um dia, assim o espero, Águia adorada, virás buscar o teu passarinho e, subindo com ele para o Fogo do Amor, mergulhá‑lo‑ás eternamente no ardente Abismo desse Amor, ao qual se ofereceu como vítima...
( Santa Teresinha- História de uma Alma, Ms B 5rº-vº)
"Sinto, sobretudo, que a minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o Bom Deus como eu amo, de indicar às almas minha pequena trilha. Se o Bom Deus atender meus desejos, meu Céu se passará na terra, até o fim do mundo. Sim, quero passar meu Céu a fazer o bem na terra”
(Santa Teresinha- História de uma alma)
1º de Outubro Festa de Santa Teresinha

Thursday, May 26, 2016

Desejo de uma União Com Jesus - Tão Profunda, que Ele só Viva e Aja na Alma

Desejo de uma União Com Jesus - Tão Profunda, que Ele só Viva e Aja na Alma

Julgo necessário, minha Madre, fornecer-vos ainda algumas explicações sobre a passagem do Cantares: “ _ Atraí-me, correremos”, por me parecer pouco compreensível o que quis dizer: “ Ninguém, declarou Jesus, pode vir a mim, se MEU PAI, que me enviou, o não atrair. Em seguida, em sublimes parábolas, e alguma vez sem recorrer sequer a esse meio tão familiar ao povo, ensina-nos que basta bater, para que abram; buscar, para que encontrem; estender humilde a mão, para conseguir o que se pede... Diz ainda que tudo quanto se peça a seu Pai em nome DELE, será concedido pelo Pai. Por isso sem dúvida, o Espírito Santo, antes do nascimento de Jesus, ditou esta súplica profética:  _ Atraí-me, correremos.

Em que consiste, pois, pedir que seja atraído, senão que a gente se uma, de modo íntimo, ao objeto que cativa o coração? Se o fogo e o ferro raciocinassem, e o último dissesse ao primeiro: Atraí-me-  não provaria que se quer identificar com o fogo, de molde a ser penetrado e entranhado por ele, e com ele parecer constituir uma só coisa? Assim é minha oração, Madre muito amada. Peço a Jesus me atraia às chamas de seu amor, me una tão estreitamente a ele, que seja ele quem vive e atua em mim. Noto que quanto mais o fogo do amor me abrasar o coração, tanto mais exclamarei: Atraí-me! – Tanto mais, também, as almas que se aproximarem de mim (pobre e minúsculo escombro de ferro inútil, se me arredar do divino braseiro), correrão lépidas ao odor  dos perfumes de seu Bem- Amado, pois a alma abrasada de amor não consegue permanecer inativa. Como Santa Madalena, conserva-se indubitavelmente aos pés de Jesus, a escutar-lhe a palavra doce e ardente. Parecendo não dar nada, dá muito mais do que Marta, a qual se atormentava com muitas coisas, e queria que a irmã a imitasse.

Não são as ocupações de Marta que Jesus censura. A tais ocupações, sua divina Mãe humilde se sujeitou toda a sua vida, pois tinha que preparar as refeições para a sagrada família. Queria apenas corrigir a inquietação de sua ardorosa hospedeira. Isto foi compreendido por todos os Santos, de modo mais particular, talvez, pelos que encheram o universo com a luminosidade da doutrina evangélica. Não foi na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus hauriram a ciência divina, que arrebata os maiores gênios? Disse um Sábio: “ Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, que  levantarei  o mundo de seus eixos.” O que Arquimedes não pode alcançar, porque sua solicitação não se dirigia a Deus e se colocava num ponto de vista material, obtiveram- no os Santos em toda a sua plenitude. Como ponto de apoio, deu-lhes o Todo-poderoso a SI MESMO, E SÓ A SI MESMO; como alavanca: a oração, que incandesce com o fogo do amor, e foi desta maneira que soergueram o mundo. Assim é que os Santos ainda militantes o soerguem, e os Santos vindouros o soerguerão, e até o fim do mundo.

Minha querida Madre, quisera agora explicar-vos o que entendendo por odor dos perfumes do Bem-Amado  . Dado que Jesus se elevou ao Céu, só posso segui-lo pelos vestígios que deixou. Mas, como são luminosos tais vestígios, como são recendentes! Basta lançar um olhar sobre o Santo Evangelho, e logo respiro os perfumes da vida de Jesus, e sei para que lado correr... Não é para o primeiro lugar, é para o último que me dirijo. Em vez de postar-me na frente como fariseu, repito cheia de confiança, a humilde súplica do publicano. Sobretudo, porém, imito o procedimento de Madalena, sua admirável, ou melhor, sua amorosa audácia, que encanta o Coração de Jesus, e seduz o meu. Sim percebo que, se me pesassem na consciência todos os pecados possíveis de cometer, iria, com o coração partido de arrependimento, lançar-me aos braços de Jesus, pois sei quanto ama o filho pródigo * que a ele retorna. Não é por ter Deus, em sua proveniente misericórdia, preservado minha alma de pecado mortal, que me elevo até ele pela confiança e pelo amor.

 * Nota de rodapé: Não ninguém poderia amedrontar-me, pois sei como teria de haver-me com seu amor e com sua misericórdia. Sei que toda essa multidão de ofensas se desfaria num piscar de olhos, como uma gota de água lançada num braseiro ardente.
Narra-se, na Vida dos Padres do Deserto, que um deles converteu uma pecadora pública cujos desmandos escandalizavam toda a redondeza. Movida pela graça, a pecadora seguia o Santo ao deserto, para ali fazer rigorosamente penitência, quando na primeira noite da viagem, antes de chegar ao lugar de sua reclusão, romperam-se-lhes os laços mortais com o ímpeto de seu arrependimento cheio de amor. No mesmo instante, o eremita divisou sua alma levada pelos anjos ao regaço de Deus.
Eis aí um exemplo bem frisante daquilo que eu quisera dizer, mais tais coisas não podem ser externadas...

(Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, História de uma alma: manuscritos autobiográficos.)

Tuesday, May 24, 2016

Teu desejo é a tua oração

 
Meu coração grita e geme de dor (Sl 37,9). Há gemidos ocultos que não são ouvidos pelos homens. Contudo, se o coração está possuído por tão ardente desejo que a ferida interior do homem se manifesta em sons externos, procuramos a causa dizemos a nós mesmos: talvez ele tenha razão de gemer, e talvez lhe tenha sucedido algo. Mas quem pode compreender esses gemidos, senão aquele a cujos olhos e ouvidos eles se dirigem? Por isso diz: Meu coração grita e geme de dor. Porque os homens, se ouvem às vezes os gemidos de um homem, ouvem freqüentemente os gemidos da carne; mas não ouvem o que gemem em seu coração.

E quem seria capaz de compreender por que grita? Escuta o que diz: Diante de vós está todo o meu  desejo (Sl 37,10). Não diante dos homens, que não podem ver o coração, mas diante de vós está todo o meu desejo. Se, pois, o teu desejo está diante do Pai, ele, que vê o que está oculto, te recompensará.

Teu desejo é a tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que o Apóstolo disse: Orai sem cessar (1Ts 5,17). Será preciso ter sempre os joelhos em terra, o corpo prostado, as mãos levantadas, para que ele nos diga: Orai sem cessar? Se é isto que chamamos orar, não creio que possamos fazê-lo sem cessar.

Há outra oração interior e contínua: é o desejo. Ainda que faças qualquer outra coisa, se desejas aquele repouso do Sábado eterno, não cessas de orar. Se não queres cessar de orar, não  cesses de desejar.

Se teu desejo é contínuo, a tua voz é contínua. Ficarás calado, se deixares de amar. Quais são os que se calaram? Aqueles de quem foi dito: A maldade se espalhará tanto, que o amor de muitos esfriará (Mt 24,12).

O arrefecimento da caridade é o silêncio do coração; o fervor da caridade é o clamor do coração. Se tua caridade permanece sempre, clamas sempre; se clamas sempre, desejas sempre; se desejas, tu te recorda do repouso eterno.

Diante de vós está todo o meu desejo. Se o desejo está diante de Deus, o gemido não estará? Como poderia ser assim, se o gemido é a expressão do desejo?

Por isso o salmista continua: Meu gemido não vos é oculto (Sl 37,10). Não é oculto para Deus, mas é oculto para a multidão dos homens. Ouve-se por vezes um humilde servo de Deus dizer: Meu gemido não voa é oculto e vê-se também esse servo sorrir. Era por que o desejo está morto em seu coração? Se o desejo permanece, também permanece o gemido; este nem sempre chega aos ouvidos dos homens, mas nunca está longe dos ouvidos de Deus.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (século V)